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“O ENSINO DA OBESIDADE NOS CURSOS  DE MEDICINA DO BRASIL: UMA PROPOSTA DE MUDANÇA”

agosto 3, 2018

“O ENSINO DA OBESIDADE NOS CURSOS  DE MEDICINA: UMA PROPOSTA DE MUDANÇA”

Henri Fernando Bischoff  

médico anestesiologista, Mestre em Educação com atuação no ramo da obesidade e nutrição

 

RESUMO

A obesidade se caracteriza como objeto de estudo do presente artigo, cujo problema reside na  seguinte questão: Porque o Ensino da  Medicina  tem sua atenção voltada  para a anorexia e a bulimia nervosa, definidas como transtornos alimentares, os quais fazem parte do grupo de transtornos psiquiátricos caracterizados por padrões anormais da alimentação,  se estes são apenas os mais comuns e os mais definidos?Poderiam  os demais transtornos alimentares que  não são apresentados como desordens psiquiátricas aos médicos e estudantes nos Tratados de Medicina, os quais, representam um universo muito maior do que se acredita, estarem sendo tratados sem a devida atenção requerida e, assim , explicar a peça do quebra-cabeças que estava faltando no modelo paradigmático? No sentido de responder provisoriamente estas questões, abordar-se-á de forma ampla sobre a temática: O ensino da obesidade nos cursos de medicina: uma proposta de mudança paradigmática?

 

 

Palavra-Chaves: Transtornos alimentares; obesidade; psiquiatria; cursos de medicina.  

 

SUMMARY 

 

The obesity is characterized as object of study of the present article, whose problem lives in the following subject: Why the Teaching of the Medicine has your attention returned just for the anorexia and the nervous bulimia, defined as alimentary upset, which are the ones part of the group of psychiatric upset characterized by abnormal eatings patterns, if these are just the most common and the more defined? They were able to the other alimentary upset what are not presented as psychiatric disorders to the doctors and students in the Treaties of Medicine, the ones which, represent a very larger universe of  than it is believed, be they being treated without the due requested attention and, like this, to explain the piece of  puzzles that was lacking in the paradigmatic model ? For  answering these subjects,  will be approached in a wide way on the theme: The teaching of the obesity in the medicine courses: a proposal of change paradigmatic?

 

 

Key words: Alimentary upset; obesity; psychiatry; medicine courses.

 

 

1 Considerações Iniciais

 

A obesidade é a mais comum das desordens nutricionais nos Estados Unidos, e custa mais de cem bilhões de dólares americanos, por ano, em despesas médicas relacionadas.

Estima-se que aproximadamente 60% dos americanos adultos estão com sobrepeso e/ou obesidade. Aproximadamente 60% dos homens e 51% das mulheres nos Estados Unidos têm sobrepeso ou inclusive estão obesos. Ao interpretar esses dados, contudo, é importante lembrar que há uma relação inversa entre o estado socioeconômico e a obesidade, especialmente entre as mulheres.

A simples ocorrência de tais números demonstra a ineficácia do tratamento conservador. Sob a ótica Kuhniana, algo existe no modelo paradigmático, que não responde a todas perguntas do quebra-cabeças.

Uma porção significativa da variação de peso é genética. Menos de 1% dos pacientes obesos tem uma doença subjacente que possa explicar sua obesidade. As endocrinopatias são as causas secundárias mais comuns de obesidade, dentro desse universo de um por cento. Noventa e nove por cento dos pacientes obesos não tem sua causa nas endocrinopatias (CÉCIL, 2005).

O Brasil é o país com o maior número de faculdades de medicina do mundo, e, apesar disso, a maioria dos médicos não recebe treinamento específico para avaliação e controle da obesidade, a despeito do fato de uma grande parcela de seus pacientes estar, possivelmente, com excesso de peso, ou ser francamente obesos. Embora tenha havido progressos na compreensão da fisiopatologia e do tratamento da obesidade, mesmo assim, continua sendo uma doença de difícil tratamento (CFM- 2006).

Faz-se necessário uma devida compreensão das contribuições do decréscimo da atividade física relacionada com o trabalho, do decréscimo das atividades da vida diária e do aumento do comportamento sedentário e dos transtornos alimentares caracterizados por padrões anormais de alimentação e atitudes erradas sobre a importância do corpo e do peso,  para ajudar o médico a interagir com o paciente para descobrir padrões que possam relacionar-se com o aumento de peso.

Existem mudanças nos ambientes ocidentais que estão conspirando para expor as tendências de obesidade nas pessoas com suscetibilidade constitucional ou genética favorável. Médicos pesquisadores que estejam atentos para estes fatores ambientais são mais eficientes em ajudar seus pacientes obesos a identificar quais desses fatores ambientais estão contribuindo em maior proporção para o problema e a desenvolver programas com maior possibilidade de sucesso.

 

2 O ENSINO DA OBESIDADE NOS CURSOS  DE MEDICINA: UMA PROPOSTA DE MUDANÇA PARADIGMÁTICA

 

No ensino da medicina costuma-se apresentar-se a obesidade enquadrada em escalas analíticas como Índice de Massa Corporal e, associa-se ao aumento desse índice ao número de complicações metabólicas associadas à obesidade.

Os transtornos alimentares fazem parte de um grupo de transtornos psiquiátricos caracterizados por padrões anormais da alimentação e atitudes erradas sobre a importância  do peso e do corpo, especificamente, a avaliação da auto-estima com base no peso. Os mais comuns e mais definidos transtornos alimentares citados na literatura médica são a anorexia e a bulimia nervosa. A característica de anorexia nervosa é a busca de emagrecimento mesmo diante de extrema magreza. A definição de bulimia nervosa é um ciclo de compulsão alimentar seguido de comportamento compensatório e inadequado para evitar ganhar peso ( p.ex., vômito auto-induzido, uso indevido de laxantes e diuréticos, jejum, excesso de exercícios) e exagerada preocupação com o peso corporal.

No modelo tradicional, apenas a bulimia e a anorexia nervosa são tratadas como desordens psiquiátricas propriamente ditas, recebendo tratamento e acompanhamento de  profissional médico especializado na área psiquiátrica, ao passo que os demais pacientes que apresentam obesidade, inclusive obesidade mórbida, tem seu tratamento encaminhado ao médico endocrinologista, mesmo sabendo-se que a literatura aponta o envolvimento das endocrinopatias em menos de 1% como doença subjacente que possa explicar sua obesidade.

Observando-se os quadros de obesidade que não se encaixam nos padrões de anorexia e bulimia nervosa, nota-se variantes de transtornos do comer compulsivo que são tratados no modelo tradicional como desordem nutricional e está baseada em abordagem por meio de dietas, atividades físicas, modificação de comportamento, farmacoterapia ou cirurgia bariátrica (CÉCIL, 2005).

Note-se que há uma tendência histórica em “destinar” os cuidados da  obesidade aos domínios da endocrinologia, mesmo à luz dos conhecimentos atuais em saber que seus conhecimentos não abrangem mais do que um por cento da fisiopatologia da obesidade. Não caberia nesse artigo discorrermos sobre todas as origens que levaram a endocrinologia ser o campo do saber médico destinado a tratar obesidade até os tempos atuais, o que se sabe é que se acreditava, no princípio, tratar-se de um distúrbio glandular.

Em 1998,  a Organização Mundial de Saúde (OMS) apontava que:

 

A obesidade afetava 5 a 10% da população mundial. Ou seja, mais de 250 milhões de pessoas. Atualmente, esses números foram ultrapassados: estima-se que haja 700 milhões de pessoas com excesso de peso e 350 milhões de obesos. Em outras palavras, mais de um bilhão de pessoas estão acima da faixa de peso ideal ( ROBERT, 2003, p.30).

 

O paradigma tradicional tem na reeducação alimentar uma das suas colunas mais sólidas do seu tratamento representado pela dieta. Como foi dito anteriormente, somente a anorexia e a bulimia nervosa são tratadas como desordens psiquiátricas, restando todas as demais classes de obesidade, como distúrbios não psiquiátricos.

Ora, em uma patologia que tem como base de enfrentamento fazer dieta, supõe-se que o sujeito esteja apto para tal intento, haja visto que o mesmo não é portador de nenhum “distúrbio psiquiátrico” que o impeça de realizá-lo, portanto, conclui-se que o mesmo, ao ser fornecido uma dieta, tem capacidade para seguí-la e de reeducar-se!

Aos olhos dos profissionais da saúde, da sociedade, da família e do próprio paciente surge esse estranhamento ao ver o insucesso do plano dietético fornecido, uma vez que o paradigma está fundado no princípio de que o paciente tem o controle sobre aquilo que ele pode ingerir ou não.

O que explicaria, então o aumento crescente da obesidade e a expressiva taxa de insucessos terapêuticos?

Em nosso entendimento, o paradigma tradicional tem uma falha ao tratar apenas como transtornos psiquiátricos os transtornos alimentares definidos como anorexia e bulimia nervosa, deixando os demais subgrupos de obesidade subentendidos ou mal-definidos como transtornos psiquiátricos. Faz-se necessário enfatizar veementemente o aspecto compulsivo das demais formas de obesidade, salientando-se que, os portadores da mesma não tem competência para seguir dietas, pois também são portadores de um transtorno psiquiátrico caracterizado como transtorno alimentar compulsivo de variante atenuada.

Seguindo essa linha de pensamento, a obesidade é uma forma de adicção aos farináceos e doces (não de gorduras) que acomete os pacientes no final da tarde ou início da noite (happy-hour), preferencialmente no domicílio do paciente (fuga do social), que se estende até o horário do paciente adormecer. Pela manhã, o paciente não sente fome, come pouco no almoço, e, à tardinha o ciclo reinicia-se.

O ponto chave evidenciado é a incapacidade do paciente deixar de ingerir farináceos ou doces ao chegar em casa. O mesmo acaba engordando, e, para continuar alimentando seu “vício” passa a enganar-se com similares: Pão preto, pão light, torradas, biscoitos integrais, entre outros.

O paciente deveria ser incentivado a ingerir sua carga de farináceos e doces pela manhã até o horário do almoço deixando a tarde para a ingestão de frutas e proteínas para a noite. É importante frisar que as gorduras não despertam a compulsão alimentar a essa parcela de pacientes compulsivos por farináceos, portanto, poderão ser ingeridas a qualquer horário do dia, desde que não associadas a farinha ou doces após o almoço.

Com as conjecturas acima, tentamos definir uma parcela dos pacientes obesos que não vêm obtendo êxito aos programas tradicionais de tratamento porque estão baseados num paradigma em crise.

O antigo e o novo paradigma não são comparáveis; em verdade, são incomensuráveis.

Os proponentes do novo paradigma são, em geral, pessoas jovens.  Compreende-se por que as reações hão de surgir principalmente das gerações mais velhas. Os novos conhecimentos acabam por implantar-se,  muitas vezes, não porque os opositores sejam convertidos, mas porque esses opositores acabam perecendo…

 

3 Considerações Finais

 

Conclui-se que, o paradigma tradicional necessita olhar os pacientes portadores de obesidade como comedores compulsivos, incapazes de seguir uma dieta que contemple farináceos ou doces após o almoço, e, fundamentalmente, tais pacientes, são portadores de desordens psiquíátrica, necessitando acompanhamento e tratamento  especializado, até mesmo com medicação específica para esse fim, encontrando campo especializado do saber na psiquiatria e não na endocrinologia.

Nosso intento é apresentar uma proposta para a ciência normal na tentativa de explicar algo que está ocorrendo dentro do paradigma e que, talvez, os pesquisadores, não tenham percebido. Não existe dentro do paradigma nenhuma citação de que o paciente obeso não tenha o controle sobre a ingesta de farináceos após o almoço. Neste contexto, talvez seja essa a peça do quebra-cabeças que esteja faltando para explicar o paradigma, talvez não… A experiência positiva  desse pesquisador na vida profissional com trato de pacientes obesos  atendendo mais de dez mil pacientes obesos ao longo de 13 anos qualifica suas observações.

 

REFERÊNCIAS:

 

CECIL, Russell L.; GOLDMAN, Lee; AUSIELLO, D. A. Cecil: tratado de medicina interna. 22. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

 

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM) – Ensino Médico no Brasil e o discurso na modernidade. Ano XXI . Nº. 159 . pp 23-4 – abril/maio/junho 2006

KUHN, Thomas S.  A Estrutura das revoluções científicas.  2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1987.

 

ROBERT, H. Emagrecimento. São Paulo: Larousse do Brasil, 2003.

 

STEGMÜLLER, Wolfgang. A Filosofia contemporânea. São Paulo: EPU/EDUSP, 1977.

 

 

 

 

 

 

 

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