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A OBESIDADE E SEU TRATAMENTO FARMACOLÓGICO

julho 13, 2018

A obesidade e seu tratamento farmacológico

Dra Emilia Vitoria da Silva

A obesidade é, hoje, um dos mais graves problemas de saúde pública, e deixou de ser
uma questão de natureza estética para tornar-se importante fator de risco para inúmeras
doenças que comprometem a saúde do homem contemporâneo. É uma condição crônica que é
associada a morbidade e mortalidade significantes.
No contexto mundial, 300 milhões de pessoas são obesas e 800 milhões estão com
sobrepeso (83). No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
revelam que 8,9% e 13,1% dos homens e mulheres adultos, respectivamente, são obesos (84),
o que é suficiente para observar que é uma doença de alta prevalência.
A obesidade é definida como excesso de gordura em relação ao tecido magro corporal,
e, em humanos, é o resultado de interações entre fatores ambientais e genéticos. A
alimentação incorreta e a falta de atividade física são agravantes do problema; também pode
ser secundária a doenças neuroendócrinas, à cirurgia hipotalâmica ou ao uso de
medicamentos, por exemplo, glicocorticoides, antidepressivos tricíclicos, lítio, fenotiazinas,
ciproeptadina, medroxprogesterona, entre outros. A obesidade também pode ser de origem
genética – associada a alterações cromossômicas ou mutação genética (85).
Apesar de não aumentar diretamente a mortalidade da população, a obesidade
predispõe a uma série de doenças secundárias (diabetes melito tipo 2, hipertensão, doenças
coronarianas, hipercolesterolemia, osteoporose do joelho, dores lombares, doença de refluxo
gastroesofágico, gota e apneia do sono) que elevam a morbidade dos indivíduos e diminuem
sua expectativa e qualidade de vida. Além destas doenças, estudos relacionam obesidade com
câncer e doenças cardiovasculares (85, 86). Existe, ainda, significante estigma psicossocial
associado ao “estar obeso” (83).
Para o diagnóstico da obesidade, é calculado o Índice de Massa Corpóreo (IMC),
também conhecido como Índice de Quetelet, que é a divisão direta do peso corpóreo, em
quilogramas, pela altura, em metros, elevada ao quadrado. O indivíduo é considerado obeso
quando seu IMC é igual ou maior que 30. Se o IMC estiver entre 25 a 29,9 Kg x m-1
, o
37
paciente é considerado com sobrepeso (85). O padrão da distribuição da gordura também é
um fator prognóstico importante, o qual é medido pela circunferência da cintura. De fato, esta
medida de adiposidade central é mais fortemente associada a risco cardiovascular que o IMC,
principalmente em idosos (83).
A abordagem terapêutica para a obesidade consiste em tratamento não farmacológico,
farmacológico e cirúrgico. A primeira abordagem é a principal e deve estar presente em
qualquer tipo de tratamento. Consiste em reeducação alimentar, mudança de comportamento e
atividade física regular, ou intensificada, quando se deseja maior perda de peso.
O tratamento farmacológico é utilizado nos pacientes com IMC igual ou maior que 30
kg x m-1 ou acima de 27 kg x m-1, quando o sobrepeso é associado a comorbidades, como
hipertensão, hipercolesterolemia, diabetes melito tipo 2 ou osteoartrite de joelho. Contudo,
reeducação alimentar, exercício físico e mudanças de comportamento devem estar sempre
presentes (83).
Os fármacos prescritos para perda de peso podem ser divididos em duas categorias:
inibidores da lípase pancreática (absorção intestinal de gorduras) e supressores do apetite;
estes últimos podem ser subdivididos com base nos neurotransmissores afetados.
Os principais fármacos usados no tratamento da obesidade são descritos na Tabela 1
(85, 87, 88).
Tabela 1. Descrição sumária dos principais fármacos usados no tratamento da obesidade
Ação terapêutica Fármaco(s)
Inibição da lípase pancreática e diminuição da
absorção de gorduras.
Orlistato
Inibição da recaptação da serotonina e
noradrenalina.
Sibutramina
Supressão do apetite por estimulação do
Sistema Nervoso Central (SNC), mais
especificamente o centro hipotalâmico da
fome; com a liberação das catecolaminas.
Anfepramona,
mazindol,
femproporex
Inibidores da recaptação da serotonina. Fluoxetina (*)
(*) – Utilizado em pacientes obesos que também apresentam depressão ou com desordens alimentares (bulemia
ou anorexia).
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De um modo geral, a efetividade da farmacoterapia para o tratamento da obesidade
não é clara. A perda de peso é modesta, 5 kg ou menos em um ano e não há um medicamento
que seja mais efetivo que outro. Não obstante esta baixa efetividade, a perda de peso ponderal
de 5 a 10% é associada à redução de risco para doenças crônicas citadas como consequência
da obesidade (85).
As cirurgias bariátricas devem ser reservadas àqueles casos de obesidade mórbida.
No entanto, apesar dos riscos inerentes à obesidade, o que preocupa, notadamente, o
paciente é mais a busca do corpo perfeito – como padrão de beleza estético – e menos uma
vida saudável. Na preocupação insensata pelo corpo que atenda às exigências da sociedade de
consumo atual, muitas pessoas perdem o discernimento para analisar o que é lógico, o que é
correto e, principalmente, o que é baseado em evidências.
Um bom exemplo para ilustrar este quadro é o uso indiscriminado de tiratricol, um
hormônio tiroideano, cuja única indicação é o câncer de tireoide não responsivo à
levotiroxina, em fórmulas manipuladas para emagrecimento, mesmo sem nenhuma evidência
de sua efetividade (86).
Além do uso irracional de medicamentos, há uma tendência dos pacientes em buscar
informações em recursos não-médicos como páginas da Internet, o que pode ser comprovado
pelo aumento do número de sítios que divulgam dados sobre tratamento da obesidade (89).
Por ser uma condição estigmatizante e que causa constrangimento, o anonimato
proporcionado pela Internet pode contribuir para que estes pacientes procurem informações
por este meio (31), principalmente aqueles que se frustraram com tratamentos anteriores.
Prova disso é que a perda de peso é um dos temas mais procurados em páginas da Internet,
dentre os assuntos da área da saúde (21).
Adicionalmente, Hwang et al. (90) afirmam que os conselhos relacionados a
medicamentos para perda de peso são mais prováveis de serem errôneos e potencialmente
danosos que os de outra natureza.
Por ser uma doença de alta prevalência, por aumentar a morbidade dos pacientes e
contribuir para mortalidade, pelo sobreuso dos fármacos usados no seu tratamento e ao
potencial de disseminação de informações divergentes dos protocolos e diretrizes pela rede
mundial de computadores, escolheu-se o tratamento farmacológico da obesidade como tema
específico para avaliar a qualidade de páginas da Internet.

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